quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Mais uma onda

- Não dá para olhar o presente como se fosse um retrato de nosso passado -, interrompeu-me um pensamento qualquer enquanto eu olhava a preguiça das ondas de um mar marrom outrora esverdeado. 

A ligeira provocação agora fazia sentido. Nos habituamos a procurar no passado os argumentos e momentos que possam justificar nossas atuais posturas. Mesmo que tenhamos mudado completamente, tornado-nos flexíveis, toleráveis, insistimos em negar que não somos mais os mesmos para não abandonarmos o que fomos ou por aquilo sermos abandonados. 

A praia, na praia, as pranchas novas criam antigas espumas, o campo de areia é disputado por chuteiras feitas de unhas e pés descalços e os raios solares de não sei quanta centena de anos douram as damas. Essa é a concepção que tenho desde sítio quando tinha meus quinze anos e quase duas décadas depois. Pouca coisa mudou. A sujeira pela manhã está lá. Copinhos plásticos, bagaços de milho, palitos de sorvete. Antes era eu que não percebia. Muita coisa está diferente. A orla da praia, os novos quiosques, as pessoas que não faço ideia de quem sejam e de onde vêm. Regressei diversas vezes a esses mundo sempre a procura de um quadro, de uma tela marcante, enquanto que muros foram sendo grafitados, amigos mortos, perdidos e esquecidos, lajotas trocadas por asfalto, pinga com mel substituída por uísque com energético. 

- Não somos o que fomos, muito menos o que propomos - novamente me desnuda a mente.

Mesmo assim, insistimos em não querer partir, em resgatar, em construir uma memória que por si construiu sua história independente de nossa vontade. É como o cabelo comprido que cai, como a barriga que cresce, como o partido que de suas bandeiras, na prática, se despede, como a cegueira leve que se impõe e propõe os óculos.

Memória X História.

A última onda quebra após a última onda e uma nova primeira onda se antecipa a infinitas novas ondas que se formam no oceano. É isso. Não é caso de se lamentar. Apenas mergulhar em uma nova poça, em muitas poças em busca das convicções que se evaporaram.

domingo, 2 de novembro de 2014

Crônicas Curitibanas: Timing

 A sociedade é rotineira. Tá aí uma máxima que posso afirmar sem medo de ser condenado de um lado ao outro. Nós nos organizamos de acordo com algum calendário ou ciclo. Tem gente que se organiza pelos meses e em torno de seu aniversário ou do próximo aniversário de namoro, casamento, renascimento. Deste modelo planeja suas férias, suas viagens. No primeiro feriado ir a casa da mãe; segundo feriado, praia; feriado prolongado, viagem internacional na América do Sul. E de fim de semana em fim de semana se traça suas rotinas para superar a fadiga de ter que se conviver com as pessoas.

Tem gente que se organiza através de ciclos. Seja o ciclo da lua para cortar o cabelo, seja o ciclo das marés para surfar ou mergulhar em algum paraíso tropical. Tem o ciclo do clima que determina o momento certo de plantar, deixar crescer e colher. Tem o ciclo da menstruação, ou fertilidade, em que o casal se organiza para engravidar e enriquecer a sociedade com mais gente sem saber que em breve a sua rotina será totalmente revolucionada por um ser pequenino que não obedece as rotinas da sociedade, que traça por si só seus costumes e vontades.

É tanta rotina que se acelerarmos o controle do mundo ficaremos entendiados. No Brasil, país em que vivemos, todos conhecem a máxima: o ano só começa após o carnaval. É uma regra desregrada de difícil entendimento para sociedades que não se organizam com calendários cristãos. Para estes, principalmente ocidentais, o ano começa no primeiro dia do ano. Por isso, até quando vêm ao Brasil presenciar o maior espetáculo da terra, já estão um pouco cansados de 45 dias ou mais de labuta em suas terras natais. Nós, brasileiros, não. Ainda curtimos o frescor de um ano que começa com todo mundo transvestido e de ressaca.

E o controle da vida segue acelerado com as festas populares, os feriados comerciais, Dias das Mães, Festa Junina, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Sete de Setembro, Dia das Crianças, ou Nossa Senhora de Aparecida, Finados e Natal. Todo ano é assim, com um pequeno intruso a cada dois anos que é o período eleitoral. Esse se introduz na nossa agenda, damos até uma certa importância, mas logo esquecemos. Os políticos, por sinal, organizam seu universo de dois em dois anos. É um calendário avesso as nossas tradições. Para eles, a sociedade se organiza em eleição municipal, estadual e federal, legislativa e executiva. Fora disso, a nossa rotina, festas populares, datas comemorativas, datas alusivas são meras casualidades.

A sociedade é rotineira e não gosta de que se quebre essa organização. Nem a coletividade, nem os indivíduos, nem o comércio, a imprensa, nem os empresários. Por isso, embora algumas cidades tenham carnaval fora de época, não é uma momento que comove todo o país. Assim como não mobiliza as lojas se alguém quiser fazer um Second Children's Day em junho, embora o nome traga o aspecto de novidade. Mesmo porque este período é destinado às festas juninas. Também fracassará quem apostar em antecipar o Halloween para agosto. Primeiro porque é mês dos pais. Segundo porque se deve honrar pai e mãe, conforme as tradições. E esta é uma máxima que nem os militares, que são também pais, ousam contestar.

Agora, por outro lado, alguém ainda dúvida da nossa capacidade de nos acostumar e nos acomodar com as rotinas de nossa sociedade e que alterações nela nos enfastiam ou viram motivo de piada? Dou um exemplo. O deadline eleitoral acabou em outubro. Amém. Em novembro, ainda nos prendemos um pouco aos finados para entrar de cabeça no período natalino com seus perus, bolas, carros na promoção de supermercado e shoppings, presentes, mensagens de tolerância, fraternidade, amor e respeito ao próximo. Mas eis que uma turma indignada com o resultado das urnas tenta esticar o período eleitoral. Tentam o terceiro turno com a crença que agora iram construir maioria. E, nesta tentativa, não percebem que a agenda mudou, que os trabalhadores já negociam o recesso de fim de ano, que somam seus 13os salários, organizam amigos secretos, reservam restaurantes e bares previamente para as festas de fim de ano. Essa turma perdeu o timing do golpe. Já era. Quem sabe, em 2015, depois da Páscoa. Agora, a única coisa que vão conseguir é irritar aquele bom velhinho de barba branca. Porra, diria Noel, bem no período que sou rei vão querer diminuir minha importância? E os comerciantes, pobres reféns do otimismo, que já se ferraram com o pessimismo da Copa do Mundo, trocarão a decoração vermelha pelo verde e amarelo dos ressabiados? Duvido. Aposto minha ida a Miami que a próxima vez que verei a Boca Maldita lotada não será para ver um protesto fora de época, mas para presenciar as pessoas deslumbradas pelo Natal Encantado do HSBC, como determina nosso protocolo rotineiro social.

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Manolo Ramires

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Crônica Curta: No descritivo de função

O trabalhador sofre. Está no seu descritivo de função. Servirá seu patrão, venderá sua força de trabalho e não reclamará. Terá momentos de alegria, mas a sofridão é sua missão. Se não for no trabalho, será no trajeto de ida. Ou de volta. Ônibus lotado. Terminal lotado. O terminal sempre está em coma. É uma bolha de tensão social que nunca estoura. Taca-lhe caladryl, bepantol, calminex nas ideias e constatações. O coletivo tá cheio, mas as crianças conseguem se sentar no fundo. Dois meninos, um pai, sem mãe. Conversam. A janela do Inter II são as asas da imaginação de quem é desprovido de recursos.  Um guri se incomoda. Pai, porque a gente não anda de trem? Ora, achará o niño que é mais confortável? É caro, justifica o pai. Mas eu quero andar de trem, emenda . Vamos no fim do ano. É uns 100 mil?, calcula a criança. Falam do passeio da graciosa, enfim, percebo. Nós vamos em dezembro com sua tia, prevê o pai sem mãe. O outro filho muda de assunto. Eu gosto do Barney. Ele é um dinossauro. O pai se alivia. A gente pode ir à casa da tia ver Barney?  Fica tenso de novo: No fim de semana, filho. O papai acorda cedo para ir trabalhar. É o que diz. É o que o povo faz. Como o trabalhador sofre.  E nem ganha gratificação por tanta sofridão. 

domingo, 12 de outubro de 2014

Crônica curta: Clube soda

 Os passarinhos já cantam a plenos pulmões. O relógio sequer marca seis da manhã. A gata já ergue suas orelhas e mia. Pede para que a janela seja aberta. Deus deu-lhe impulso. Ainda bem que não concedeu asas. A janela se abre e ela se evade. É a nova temporada que chega. Uma fuga do frio intenso que fez nos últimos meses. Salvação também ao período sombrio pelo qual passa as redes sociais.O Brasil morreu após o carnaval e só ressuscita em novembro. Ou no Natal. A tolerância partiu do teclado. Outrora, o 'face to face' inibia os comportamentos mais exaltados. Já o touch screen, não.  O livro, clama por ser aberto. O parque, se dispõe a ser ocupado. A bola, merece uma dividida. Já a canela quer ser preservada. O calor quer ferver as cabeças, mas não para que se perda o controle. O intuito é refrescar as ideias. Até o café entende o momento. Um pretinho ristretto, por favor. Não neste momento. Só depois do almoço. Agora, os cafés da cidade têm uma nova modinha. É o clube soda! Bebidas geladas sem álcool. Ou com vodka, desde que moderada. Sem discussão. Sem acusações entre cumpas. É a estação dos passarinhos migratórios, da gata esperta na janela. O celular repousa sobre a mesa. Os risos se propagam. O canudo é acionado. Gole na água de valência também pedida. Nervos mais amenos. Brinde. Brindam os amigos opostos enquanto bradam sozinhos os bebedores de ódio. Conta vinda. Conta dividida.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

100 anos de Palmeiras

Na rua perto de casa, a gente jogava bola quase diariamente. Chegava à tarde, por volta das 16 horas, e a molecada gritava do portão: mané, mané. Era o convite que trazia como exigência a minha bola de capotão. E lá íamos nós jogarmos gol caixote. Três contra três. Às vezes até quatro contra quatro. Era uma variante muito mais irreverente da forma como se joga futebol atualmente com suas escolinhas e treinadores sempre aporrinhando sobre esquemas táticos ou formas de bater na bola. A gente se dividia no trio com o maiorzinho na zaga, o mais habilidoso no meio e o mais rápido na frente. A regra era simples. Quem marcada três gols antes tirava o outro time, independente do tempo. As traves eram feitas de madeira reaproveitada e as redes um dia foram lançadas ao mar.